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terça-feira, 26 de março de 2013

Opinião - O Ladrão de Cadáveres de Patrícia Melo

Esta foi uma leitura bastante diferente do habitual. A maioria das minhas leituras é feita em Português europeu e este livro de Patrícia Melo é escrito em Português do Brasil o que dificultou bastante a leitura na medida em que são utilizadas várias expressões e termos que desconheço e que fazem parte do calão utilizado em algumas zonas do Brasil em particular. Contudo, com alguma pesquisa gradual à medida que fui avançando na leitura, essas dificuldades dissiparam-se e foi quando comecei a gostar particularmente do livro e o li de uma ponta à outra quase ininterruptamente.

O Ladrão de Cadáveres mostra-nos a história de um homem que tem a infelicidade de, tal como em tantas outras ocasiões, estar no local errado à hora errada. Este assiste ao despenhamento de um pequeno avião e rapidamente se lança para auxiliar o piloto que está gravemente ferido. Consegue ainda chegar à fala com ele mas os ferimentos acabam mesmo por ser demasiado graves e o piloto não resiste. Após ser a única testemunha deste acontecimento, o nosso protagonista apercebe-se de que pode lucrar com isso e assim se inicia uma aventura que tem tudo para correr bem e ao mesmo tempo, tudo para correr mal. Este início fulgurante dita o restante desenvolvimento do enredo e a autora não perde tempo e contextualiza imediatamente tudo que vai acontecer de seguida. 

O design da capa (muito bem conseguido, como é apanágio da Quetzal) dá a entender à primeira vista  que o livro será bastante violento, o que na verdade não acontece e a violência é pouca ou nenhuma. No entanto, apesar dessa falta de violência, o livro é muito intenso e deixa o leitor em constante sobressalto na expectativa do que irá acontecer com os protagonistas. A condição humana é um tema muito explorado e mostra a forma como somos capazes de fazer tudo para nos livrarmos de um problema e para retirar benefícios de alguma situação. A pessoa que achamos que somos pode em segundos mostrar-se bastante diferente e tudo depende das encruzilhadas em que embarcamos. Este é um livro de sentimentos fortes e também de relações interpessoais. A autora transmite a sensação de que não podemos confiar em qualquer pessoa e as pessoas em quem confiamos podem trair-nos em qualquer instante deixando-nos sozinhos num mundo que nos devora se não estivermos atentos.

Não é um grande livro mas é um livro que me agradou. Lê-se compulsivamente na medida em que os capítulos curtos e agitados tornam difícil a interrupção na leitura. O tema é bastante original assim como as personagens apesar de faltar alguma descrição das características físicas dos protagonistas para que seja mais fácil ao leitor se identificar com elas. Em suma, vale a pena dar uma oportunidade a esta autora e estar atento ao seu trabalho futuro.


sexta-feira, 22 de março de 2013

Opinião - O Ano Sabático de João Tordo

Este foi apenas, e infelizmente, o segundo livro que li de João Tordo. A outra leitura foi do livro O Bom Inverno que em nada se assemelha a este Ano Sabático. Ao contrário de Afonso Cruz, com João Tordo bastou a leitura das primeiras palavras para poder colocá-lo ao lado dos melhores autores contemporâneos portugueses.

A leitura deste livro revelou-se como uma experiência muito pessoal. Vários dos aspectos presentes nesta obra são autobiográficos e enquadrados com a experiência de vida real do autor. Exemplo disso é o facto de que no livro, a personagem principal, Hugo, ter uma irmã gémea e ter tido um terceiro gémeo que não conseguiu sobreviver ao pós-parto. Este é um acontecimento real que afectou João Tordo na sua infância. A esta relação com a vida real junta-se o facto de que ambos, João Tordo e  a personagem Hugo tocarem o contrabaixo constituindo mais uma ligação entre a vida real e a ficção. A descrição dos sentimentos é muito pessoal e parece sair genuinamente  do coração do autor de forma empírica e pessoal. Tenho lido em vários locais algumas opiniões de leitores que não conseguiram criar um laço com as personagens e com a obra devido exactamente a essa questão. Contudo, essa foi a principal razão pela qual eu me identifiquei com o livro porque de certa forma o autor dá-nos a possibilidade de conhecermos o interior dos seus pensamentos e aquilo que o atormentou e atormenta.

Esta história tem como protagonista Hugo, um tocador profissional de contrabaixo cujo sucesso e reconhecimento tarda em surgir. Alguns problemas pessoais ditaram com que Hugo decidisse fazer um ano sabático e voltasse para Portugal para junto da sua família. No entanto, a situação de Hugo e as decisões que foi tomando na sua vida apenas dificultaram o seu regresso a Portugal. Com alguns problemas de vida, Hugo parece ser incapaz de ultrapassar os obstáculos que surgem à sua frente e a sua condição deteriora-se a olhos vistos. Junta-se a isto um problema com a bebida que Hugo assume sem pudor. Todas estas dificuldades são complementadas com uma pessoa muito parecida consigo que surge na sua vida para o atormentar.

Essencialmente este é um livro acerca da música nos seus mais diversos estados e acerca dos seus significados. A forma como esta influencia a nossa vida e como, mesmo inconscientemente, nos guia e nos ajuda a ultrapassar, ou não, os problemas do nosso quotidiano. Os sentimentos que ela nos transmite estão patenteados nesta obra e vemo-la muitas vezes como causa de sofrimento aliado ao prazer que muitas vezes nos proporciona. Outro aspecto muito bem retratado pelo autor são os dois lados da vida de um artista - o artista bem sucedido e reconhecido e o artista underground que ainda assim tem muita qualidade como músico. O glamour que achamos existir neste mundo por vezes não se afigura assim tão glamoroso e a vida de estrela pode ainda assim revelar-se bastante solitária.

Uma ressalva para uma personagem secundária que surge pouquíssimas vezes mas que deixa qualquer leitor "derretido". O pequeno Mateus, sobrinho de Hugo que com as suas falas rápidas e infantilmente perspicazes complementa os diálogos de uma forma ingénua e propositada delineando um contorno acentuado entre dois mundos. Um barco-baixo, a irmã que se chama cataplana e o disco de seu nome Mateus Vai à Escola.

Em suma uma experiência muito agradável este novo livro de João Tordo. Não sendo uma obra prima, vale a pena a leitura para mergulharmos num mundo diferente que não estamos habituados a ver tratado.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Opinião - Jesus Cristo Bebia Cerveja de Afonso Cruz

É com alguma desilusão que vos apresento aqui a opinião à minha estreia nas leituras de Afonso Cruz. Após ler e ouvir opiniões muito favoráveis acerca deste autor e nomeadamente do livro A Boneca de Kokoschka, decidi embarcar nesta leitura. Talvez seja por ter criado demasiadas expectativas mas este livro não me convenceu. Não quer isto dizer que não gostei, porque gostei, mas sim que após esta leitura não posso ainda classificar Afonso Cruz como um dos grandes nomes a ter em conta na literatura Portuguesa contemporânea comparando-o a autores como José Luís Peixoto, João Tordo, Gonçalo M. Tavares ou Valter Hugo Mãe entre outros. Este livro prova que o autor ainda está a alguma distância mas que no entanto tem potencial para chegar a patamares mais altos.

Afonso Cruz apresenta-nos um leque de personagens ricas identificadas com a dureza e crueza da vida no campo. Rosa, personagem principal, é uma jovem mulher atraente segundo os cânones da época. O Sargento Oliveira é a imagem de um brutamontes que faz uso da sua influência e poder para maltratar e tomar controlo através da força física daqueles que o rodeiam. Borja é um culto professor que se apaixona por Rosa após um acidente em que embate contra um boi. Ari, o pastor, é mais um dos homens que nutre por Rosa uma forte paixão lutando contra os ciúmes que tem devido à aproximação de Borja. Rosa viveu uma infância atribulada com a morte do seu pai e o abandono da sua mãe. Sozinha, Rosa é obrigada a cuidar sozinha da sua avó cujo envelhecimento a vai tornando cada vez mais dependente da bondade da neta. Empenhada em cumprir os desejos da sua avó e em tornar a sua estada o mais prazerosa possível, Rosa decide cumprir um dos seus desejos mais antigo: viajar até à Terra Santa. Contudo, viajar até à Terra Santa é incomportável na medida em que os meios financeiro não são suficientes e a saúde da avó já não o permite. A solução que Rosa, juntamente com algumas outras personagens como Borja, encontra, é a de transformar uma pequena aldeia alentejana na Terra Santa para que a avó se sinta verdadeiramente abençoada. O desenvolvimento da história baseia-se maioritariamente sobre esta premissa e oscila entre ambientes e acontecimentos de muita comicidade e entre acontecimentos de bastante tristeza e degradação.

A ideia é muito original como é possível perceber mas a aplicação dessa mesma ideia nem tanto. Tudo parece desenrolar-se muito "a correr" e deixa um certo sabor agri-doce no leitor. Estava à espera da criação de um Universo bastante mais complexo e o que lemos é algo que parece bastante desleixado e com pouca inspiração. Não deixa de estar presente uma considerável criatividade literária que fomenta o leitor a seguir de perto este escritor mas penso que este livro tinha potencial para ser bastante mais. É no entanto uma leitura muito agradável que oferece poucos obstáculos ao leitor na medida em que o estilo do autor é bastante simples, com frase e parágrafos curtos de fácil compreensão.

Em suma, estarei atento à carreira deste autor e quero ler mais livros da sua autoria em breve. Apesar desta minha opinião poder soar bastante negativa, gostei do livro e recomendo a quem procura uma leitura leve e descontraída com momentos de humor muito bem conseguidos e uma sociedade humilde muito bem retratada.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Opinião - O Espião Português de Nuno Nepomuceno


Soube deste livro após ter lido opiniões muito favoráveis em blogs que sigo com bastante atenção. Apesar de não conhecer o autor, decidi contactá-lo e tentar perceber se seria possível fazer uma parceria. Dotado de uma gentileza tremenda, o autor imediatamente se prontificou a enviar-me 2 exemplares do livro, um para passatempo (já sorteado, vencedor aqui) e outro para opinião. Para além disso, ambos os livros vinham devidamente autografados, um deles dirigido ao vencedor e outro dirigido a mim. Quero então agradecer a disponibilidade total do autor e agradecer também pela leitura de que vos falo de seguida.


Como alguns de vós sabem, não tenho por hábito ler policiais/thrillers mas essa tendência tem sofrido algumas alterações a partir do momento em que li O Diplomata de Vasco Ricardo (opinião aqui). Escusado será dizer que mais uma vez esse género literário me proporciona uma vez mais uma leitura de grande prazer e qualidade.
O Espião Português transporta-nos para dimensões que se alternam constantemente e que oferecem uma dinâmica e emoção incríveis à história. Neste livro somos acompanhados por André Marques-Smith, jovem Português também com nacionalidade Inglesa que desde cedo é visto como um prodígio pelos seus pares. Com um desempenho notável nos seus tempos de estudante, André Marques-Smith depressa se vê com um emprego de sonho bem remunerado como braço direito do Ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE). No entanto, esta é a parte menos emocionante do enredo. Na sua vida dupla, André é espião e trabalha na equipa da Cadmo, uma pequena mas poderosa agência de espionagem que o leva a embarcar nas mais perigosas missões. Constantemente levado ao limite, André é exposto à prova não só física mas também psicologicamente sendo obrigado a conjugar a sua vida de espião com o seu trabalho no MNE e com a sua vida privada. André é muito próximo da sua família e essa proximidade deve-se a um facto bastante interessado: todos eles foram, são, ou serão espiões. No entanto, André nem sempre fora assim tão obstinado e uma relação amorosa por pouco não lhe destruiu a vida. Contudo, não só a traição da namorada constitui um obstáculo na vida deste lutador espião. Ao longo do livro vemo-lo confrontado constantemente com as traições das mais variadas personagens quando menos esperamos deixando qualquer leitor atento completamente incrédulo.

Ler este livro é uma autêntica montanha-russa. Nunca estamos à espera do que pode vir a seguir e cada passo é uma surpresa. Os ambientes são cuidadosamente criados para deixar o leitor devidamente enquadrado na história. As relações familiares atribuem um carácter mais humano ao livro e deixam de fora a possível classificação de "mais um livro fácil de acção e tiroteios". Porque engane-se o leitor que espera apenas isso. Neste livro não lemos acção gratuito mas sim planos cautelosamente construídos que nos fazem viver a história. A música é também um elemento constante do livro e o próprio autor disponibilizou a playlist que dá som ao livro na sua página do Facebook e na sua conta do Youtube.

De salientar também um (pequeno) aspecto negativo. O facto de a quase totalidade das personagens serem descritas como incrivelmente bem parecidas transmite uma espécie de sensação de uma sociedade isolada numa "bolha". Não é relevante nem essencial mas outra abordagem poderia tornar o livro mais familiar.

Em suma, uma grande estreia de Nuno Nepomuceno. O início desta trilogia deixa qualquer leitor de água na boca à espera do volume 2 e 3. A continuar assim e temos um autor com um futuro muito promissor que poderemos ver em breve nas estantes não só de Portugueses mas também no estrangeiro. Se quiserem conhecer melhor o autor, de seguida podem visualizar duas entrevistas dele para a SIC e TVI24:


sábado, 2 de março de 2013

Opinião - Kafka à Beira-Mar de Haruki Murakami

Antes de ler Kafka à Beira-Mar estava de acordo com a opinião de vários leitores que consideravam 19Q4 o livro mais ambicioso de Haruki Murakami (a trilogia). Contudo, após terminar de ler este livro, a minha opinião mudou. Kafka à Beira-Mar é na minha opinião o livro mais complexo e mais ambicioso do escritor japonês. 

Neste livro acompanhamos duas personagens principais recheadas de singularidades muito interessantes. De um lado, o jovem de 15 anos Kafka Tamura. Kafka Tamura foge de casa do pai impulsionado pela má relação que nutre com ele e pelo angústia que sente relativamente à vida que tem. Tamura foge de tudo não fugindo de nada. Assombrado por vários traumas de infância, Tamura vive a vida calma e metodicamente perdendo por vezes o controlo de si próprio resultando em lapsos de memória. Do outro lado, temos Nakata. Um idoso que em jovem sofre um acidente do qual não se lembra causando-lhe analfabetismo e segundo o próprio Nakata, "falta de brilhantismo". No entanto, Nakata está longe de ser a imagem do analfabetismo que imaginamos habitualmente e torna-se uma personagem surpreendente à medida que o livro se vai desenvolvendo. Nakata é dono de algumas características muito particulares mas decidi destacar duas: Nakata tem a habilidade de falar com gatos com compreensão mútua e consegue permanecer a dormir durante mais de 30 horas consecutivas sem quaisquer movimentos. A par destas duas personagens principais, o livro conta com mais alguns elementos que poderão também ser considerados protagonistas e que acompanham os nossos protagonistas nesta trama. Ao lado de Kafka Tamura permanece Oshima, bibliotecário cujas características físicas e psicológicas peculiares o tornam uma figura essencial desde romance. Ao lado de Nakata está o simples e leal Hoshino que acompanha o velhote auxiliando-o em todas as tarefas necessárias.

Mais uma vez, e correndo o risco de me repetir, Murakami oferece-nos uma linguagem poética meticulosamente cuidada que oferece a cada página um sabor perfeito. As personagens e os acontecimentos encadeados entre si resultam numa harmonia que não sinto em muitos dos livros que leio habitualmente. A exploração dos sentimentos humanos e das relações interpessoais, carnais ou não, apesar de explícitas, são abordadas pelo autor com uma suavidade tão sensível que nunca nos sentimos constrangidos na leitura. Murakami é exímio na escolha das expressões sexuais e constrói os ambientes cuidadosamente para deixar o leitor confortável e enquadrado na própria cena. Como complemento, quando começo um novo livro de Murakami começo-o já com a certeza de que com ele virá uma extraordinária banda sonora escolhida pelo próprio autor influenciada pelos tempos em que o Japonês era dono de bar de Jazz. Este conjunto de elementos tão cuidadosamente bem planeados transportam qualquer leitor interessado para um Universo próprio do qual é difícil sair.

Mais um trabalho excelente do autor. É provavelmente, tendo lido a quase totalidade da sua obra, o seu melhor trabalho. Aconselho sem reservas.

Deixo-vos, como conclusão desta opinião, duas músicas que acompanham a leitura e que são ouvidas pelos diferentes protagonistas do livro.



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Opinião - Branco de Alberto Silva

Esta foi a primeira vez que li um livro deste autor. Como sabem, gosto de ler, conhecer e apoiar autores Portugueses. Após chegar à conversa com o gentil autor deste livro, o mesmo não hesitou em disponibilizar um livro para opinião no blogue e para algo mais que saberão nos próximos dias (difícil de adivinhar?)

Começando pelo aspecto gráfico do livro deparamo-nos com uma aparência muito negra que nos faz prever o ambiente que iremos viver aquando da leitura. O fundo preto com as letras brancas transportou-me imediatamente para uma atmosfera de sentimentos e acontecimentos fortes. Para além disso, no final do livro, a secção reservada à poesia que se coaduna com o elenco da história está muito bem conseguida mostrando pedaços de natureza nas páginas que separam cada poema.

Relativamente ao enredo, as minhas previsões estavam certas. Este é de facto um livro muito sombrio e que emana uma energia negativa constante. Os sentimentos dos personagens são muito bem explorados e partilhamos a sua tristeza e monotonia do quotidiano. A história inicia-se com um homem confuso acerca do seu paradeiro. Fechado num quarto de paredes nuas, brancas, sente-se desamparado.  Observa ao seu redor quaisquer elementos decorativos que possam denotar as razões da sua estada ali. Penetrando nas suas memórias, a história desenvolve-se com o relato das suas vivências.  

Este é um livro emocionalmente muito exigente. É um livro que nos faz reflectir acerca das pessoas que já perdemos pelas mais variadas razões. É um livro que traz à tona as más decisões que tomamos por vezes, conscientes ou não. Nesta leitura são exploradas as relações humanas e as características distintas do ser humano.

A linguagem é extremamente cuidada e é evidente as influências da poesia na escrita do autor.

Este é um livro que recomendo a leitores que estejam seguros das suas emoções e capazes de suportar a exigência sentimental deste livro.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Opinião - Juventude de Joseph Conrad

Este pequeno livro foi o primeiro que li de Joseph Conrad. Já há muito que queria ler algo deste tão conceituado e célebre autor mas apenas agora se afigurou a oportunidade para o fazer. Contudo, penso não ter começado pela sua melhor obra.

Juventude é uma pequena história de cerca de 60 páginas onde 5 amigos se reúnem para uma noite onde reinam o vinho e as memórias. Este grupo, composto pelo director de uma empresa, um guarda-livros, um advogado e o narrador que ouvem atentamente o relato que Marlow faz acerca da sua primeira experiência no mar. Marlow, dono e senhor dos seus 20 e poucos anos estava no auge da idade e da pujança física sentindo-se imbatível contra quaisquer contratempos. Contratempos esses que surgem aquando de uma viagem feita por Marlow e a restante tripulação de uma embarcação a Banguecoque. Nesta viagem é-nos mostrada a realidade das vivências de uma tripulação confinada a um reduzido espaço em condições adversas. Os alimentos escasseiam, a paciência também. 

Em todo o livro sentimos uma atmosfera quase autobiográfica e isso deve-se ao facto de o próprio Joseph Conrad ter servido, de 1874 a 1894 na marinha mercante tendo navegado através dos diferentes mares do globo. Li que não só nesta obra mas também nas restantes é bem visível a influência que a vida marítima de Conrad teve na sua obra sendo muitas vezes o pano de fundo dos seus romances e contos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Opinião - Romeu e Julieta de William Shakespeare

Antes de mais gostaria de agradecer ao professor que colocou este livro no programa obrigatório de uma cadeira bastante interessante que estou neste momento a frequentar (Leitura de Clássicos). Inicio esta opinião com este agradecimento porque possivelmente não embarcaria nesta leitura tão cedo e adiaria a leitura desta grandiosíssima obra.

Romeu e Julieta é um clássico de William Shakespeare que já vimos adaptado para todos os mais variados géneros e sobre os quais já foram escritas várias obras, ensaios e teses. Apesar de ser uma obra de curta extensão, há muito por onde escrever e dissertar  na medida em que possui uma riqueza literária sem igual. Começando pela variedade de personagens que acabam todas por interagir entre si nos contextos mais originais e acabando no próprio enredo e linguagem que deixa qualquer leitor deliciado. À primeira vista, podemos considerar esta  uma história de amor como qualquer outra mas é necessário reflectir acerca do espaço temporal em que esta foi escrita e no seu contexto.

A obra inicia-se com os lamentos de Romeu relativamente à irremediável e não correspondida paixão por Rosalina. Os amigos de Romeu, incomodados com tamanha tristeza oferecem-lhe conselhos para frequentar locais onde as mais belas mulheres lhe fariam esquecer aquela impossível paixão. Não foi necessária muita procura porque o relutante Romeu rapidamente vislumbra uma beleza que não mais lhe sairia do coração: Julieta. Uma paixão instantânea cresce dentro dos nossos protagonistas fazendo simultaneamente crescer um obstáculo que se lhes impõe: Julieta é filha dos Capuletos; Romeu é filho dos Montecchio. Duas famílias rivais cujo ódio se mantém por várias gerações e que será vital no desenrolar e desfecho da obra. No entanto, este não é o único entrave e a relação entre ambos mostra-se atribulada. À revelia de Julieta, o seu pai planeia o casamento com Páris. Do outro lado, Romeu luta contra tudo isto nunca perdendo de vista o olhar da sua amada e futura esposa Julieta e contando com alguns aliados que pelo sucesso deste casal estão dispostos a tudo, até aos planos mais elaborados. Mesmo sabendo já o desfecho desta história, torcemos para que no fim, fiquem juntos. O desfecho é trágico. A morte. A separação. Mas no final, a união. 

Esta obra é o expoente máximo do que a palavra amor pode representar. Puro. Cru. Nem sempre feliz.

Alguns excertos:

Excerto 1.

Excerto 2.

Excerto 3.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Opinião - Perdidos na América de Joey Goebel

Começo esta opinião realçando o muito interessante trabalho gráfico de Rui Belo no design da capa do livro. Esta edição, com a chancela da ASA brinda-nos com uma cor berrante e com os elementos visuais presentes devidamente desenhados na capa. Na capa vemos umas pernas que simbolizam o elemento sexual muito presente neste livro enquanto que na contra capa, embora não esteja aqui representada, esteja desenhado um microfone que simboliza a música que dá cor a este romance.

Relativamente ao enredo, este não pode ser considerado um grande livro. Pode sim ser considerado um livro original com personagens polémicas e sui generis. Neste livro, somos acompanhados por um grupo de 5 amigos cujas peculiares características geram polémica e um grande burburinho por onde passam. Como se não bastasse a imagem pouco comum, estes 5 amigos pertencem a uma banda que promete agitar o mundo do Rock. Resta saber no entanto quais as razões pelas quais poderão fazê-lo. Somos então acompanhados nestas cerca de 200 páginas por Aurora, jovem sensual e atraente que farta de ser vista como um objecto, decide transportar-se numa cadeira de rodas vendo contudo os seus esforços serem infrutíferos. De seguida Luster, um dos 12 irmãos cuja profissão é a de traficar droga, restando para si o papel de idealista intelectual que se alimenta de livros e vive através das suas citações. Ray, um árabe ex-combatente na Guerra do Golfo parte para os EUA na esperança de encontrar o homem que ele mesmo baleou e na esperança de encontrar o homem da sua vida apesar do seu casamento actual com uma mulher. Deixei para o fim os elementos do sexo feminino mais interessantes da história. Ember, criança de 8 anos que tem como objectivo a morte de todos os que a ela se oponham independentemente dos meios para o atingir. (citação de uma das suas façanhas aqui). Por fim, Opal. Opal é uma idosa de 80 anos que viu a sua vida desperdiçada nos tempos de trabalho numa fábrica e pretende recuperar todo o tempo perdido ao "rockar" ao máximo e tendo relações com o maior número de homens possível. Estes 5 elementos fazem deste polémico livro uma boa forma de passar algumas horas de leitura muito divertidas que arrancarão com certeza algumas gargalhadas. A música é um elemento bastante presente neste romance e faz parte do universo do autor. Também as relações interpessoais e as vicissitudes da vida são abordadas neste livro como uma caracterização bastante fiel ao que é a vida nos subúrbios e o contraste entre famílias ricas, pobres e famílias disfuncionais. 

Não é de forma algum um livro que recomende e que considere essencial mas não deixa no entanto de ser uma leitura bastante interessante e que não será considerada como perda de tempo para o leitor.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Opinião - A Vida de Pi de Yann Martel


Em primeiro lugar gostava de justificar o longo tempo que demorei a acabar esta leitura. Não porque precise de alguma justificação e porque os livros devam ser lidos mais ou menos rapidamente mas sim porque creio ser um elemento importante desta opinião. A razão principal para esta demora foi o imenso prazer que esta leitura me proporcionou. Este livro é de facto um saborear de palavras que já não sentia há algum tempo. Obrigou-me a voltar atrás várias vezes, a tomar notas, a registar citações, a parar para reflectir. A apreciar o que pode fazer a talentosa e inspirada mente humana.

Não tenho por hábito classificar nenhum livro como obrigatório mas garanto que apenas um reduzido número de leitores iria desgostar deste livro. É de facto uma grande obra. Piscine Molitor Patel é um rapaz de uma família humilde cujo próprio nome começa desde o início por ser uma questão de conflito e humilhação perante os seus pares. Este conflito leva-o a engendrar uma forma de alterar o seu nome de forma a acabar com o tom jocoso como os seus colegas se lhe dirigem. Assim, Piscine Molitor Patel diminui o seu nome para: Pi. Pi, inequívoco símbolo matemático, é o escudo que este encontra para o proteger dos seus colegas. Desde cedo Pi depara-se com as controvérsias da religião e com a dificuldade que é para si escolher uma ou porque não é possível escolher todas. Esta é uma temática recorrente neste livro e muito questionada pelo protagonista à medida que se depara com as diferentes dificuldades da sua jornada. Também a zoologia é um tema muito presente neste livro na medida em que o pai de Pi é administrador e dono de um Zoo. Existe neste livro uma descrição exaustiva e rica das características dos mais variados animais e dos seus comportamentos mediante as mais diversas situações. Parece ter havido também uma pesquisa real relativamente ao que significa gerir um Zoo na medida em que tudo parece tão autêntico embora eu não seja a pessoa certa para o avaliar.

Na segunda parte (a mais emocionante e original) vivemos a sobrevivência de Pi a bordo de um barco salva vidas tendo como única companhia um feroz tigre de Bengala. Nesta parte acompanhamos o sofrimento de um rapaz que desesperado altera todos os seus hábitos de vida com um único objectivo: a sobrevivência. O vegetarianismo é deixado para trás e qualquer fonte de nutrientes passa a ser essencial, quer seja carne, peixe ou mesmo objectos pouco comuns. A própria religião começa por suscitar imensas dúvidas em Pi. A definição do território partilhado com o tigre de Bengala, Richard Parker, é abordada com muita graça por parte do autor mas ao mesmo tempo com um conhecimento técnico notável. Conhecimento técnico esse que está presente nas fabulosas técnicas de sobrevivência utilizadas por Pi durante toda a sua jornada. Não faltam tempestades ou a escassez de alimentos e água. Não faltam elementos que motivam a felicidade de Pi embora possam parecer ao leitor como uma banalidade quotidiana. Uma ilha misteriosa. Elementos assustadores. A própria evolução da sua relação com Richard Parker é um dos elementos mais fascinantes da obra. A paixão que Pi desenvolve por Richard Parker embora a relação se mantenha entre o que esperamos que seja a relação de um ser humano com um animal selvagem.

Na terceira e curta última parte lemos o resgate de Pi. A história contada por ele mesmo. Os detectives. O estudo. As razões. Surgem muitas dúvidas acerca da veracidade da sua história e do que ocorreu na realidade. Os elementos que soam demasiado fantasiosos para aqueles que não os viveram. E no clímax do livro, uma história real, contada por Pi, com intervenientes falsos mas sentimentos reais.
Não poderia ter tido mais prazer nesta leitura. Aconselho sem a mínima reserva.
Genial.

Fica também mais uma sugestão final, ainda relacionada com esta obra. Aconselho, caros leitores, a assistirem também ao filme. É um trabalho de realização espantoso e uma utilização de efeitos especiais, devidamente trabalhados, notável. Fica a minha aposta para que nos Óscares, A Vida de Pi vença pelo menos o Óscar de Melhor Fotografia. Fica o trailer:


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Opinião - O Diplomata de Vasco Ricardo

Conheci o autor Vasco Ricardo através de opiniões muito favoráveis que li em alguns blogs que sigo e respeito. Após conversar com o autor este muito amavelmente disponibilizou um exemplar do seu mais recente livro, O Diplomata, para análise no blog e para outro fim que será revelado em breve. As expectativas eram altas e aqui vai a minha opinião.

Começamos pelo aspecto visual. A primeira coisa que vi quando me deparei com este livro foi a extraordinária capa. Um desenho espectacular, com a possível imagem do protagonista, brinda-nos aumentando as expectativas ainda mais. As cores muito bem conjugadas deixam transparecer qual o estilo da escrita e o rumo que a leitura levará. Após demonstrar o meu agrado relativamente ao design da capa ao Vasco, este informa-me que o seu irmão, ilustrador profissional, é o autor.  Parece que o talento, em diferentes vertentes, é de família. Para os curiosos não deixem de visitar o seu site de ilustrador e deliciem-se com as obras de arte aqui.

Relativamente ao conteúdo do livro, este destaca-se de tudo o que leio habitualmente. É um policial/ thriller com muita conspiração e suspense à mistura que obriga a que o livro seja lido num fôlego. A personagem principal é Gabriel (lido com sotaque americano), Secretário de Estado dos EUA. Gabriel é um homem influente com uma família de sonho com 2 filhos e uma mulher que deixa todos os homens de queixo caído. No entanto, Gabriel vive uma espécie de vida dupla cujas razões apenas surgem quando o enredo já vai bem avançado. A estrutura do livro divide-se alternando em metade dos capítulos a perspectiva de Gabriel e dos seus planos e na outra metade a perspectiva de uma criança sofredora que juntamente com a sua família vive momentos de dor e angústia. A identidade dessa criança é apenas revelada nos últimos capítulos onde todos os pormenores se começam a encaixar. Durante toda a narrativa é visível as duas personalidades do protagonista. Quando em contacto com a família, Gabriel é um homem dócil e dedicado com orgulho do que construiu no cerne da sua vida pessoal. No entanto, quando em contacto com os seus inimigos, Gabriel assume uma postura obscura e calculista. Estas duas personalidades tão vincadamente distintas são um aspecto muito positivo que retiro deste livro. Até ao final Gabriel vai alimentando os seus desejos de vingança e o livro acaba deixando a sensação de que faltou algo por dizer. Quando o leitor procurava alguma espécie de encerramento, o livro acaba.

Este é um livro que pedia talvez o dobro das páginas para desenvolver mais as personagens. A personagem de Gabriel merecia uma profundidade maior assim como os relatos da infância de uma criança maltratada poderiam ter sido mais explorados. Também os vilões e as suas características mereciam descrições mais pormenorizadas. O livro está no entanto bem estruturado e é fácil de seguir o fio condutor e os caminhos por onde somos transportados.

Em suma, foi uma leitura que me agradou bastante. Sem ser uma obra de arte, é um livro bem escrito. Estou muito curioso para o que poderá vir e para os próximos trabalhos de Vasco Ricardo.

Recomendo!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Opinião Anel de Areia de Penelope Lively

Escolhi adquirir este livro pois foi vencedor do Man Booker Prize e vejo nesse prémio alguma garantia de qualidade. A minha experiência em vencedores deste prémio tem sido muito positiva com livros como o Tigre Branco de Aravind Adiga a impressionarem-me bastante. É com alguma tristeza que revelo que no entanto este livro de Penelope Lively não me convenceu. Bem sei que não se julga um livro pela capa mas olhando para a capa deste livro nunca o compraria na medida em que se assemelha a um género de livros pelos quais não sou aficionado. No entanto, tendo a oportunidade de adquirir este livro sem qualquer custo (WinkingBooks), decidi adquiri-lo.

Este livro foca-se na história de Cláudia Hampton que decide, pretensiosamente, contar a história do mundo complementando-a com a sua história de vida e a sua experiência. Vive-se um ambiente de guerra no Egipto. Mais propriamente a II Guerra Mundial. Vive-se dor e tristeza. Os acontecimentos são muitas vezes lentos e a narrativa demora a iniciar conjugando o que poderia ter sido uma boa ideia com um ligeiro aborrecimento nas palavras. As relações amorosa comuns e pouco originais são também muito abordadas neste livro. Triângulos amorosos, ciúme, trabalho. Amor, tristeza, confusão. Relações disformes entre família. Estes são alguns elementos neste livro que largo com bastante desilusão. No entanto, não quer isto dizer que fica excluída uma segunda oportunidade a uma autora da qual já ouvi dizer muito bem.

Sinceramente, não recomendo, mas estou muito curioso em poder ouvir/ler uma opinião diferente.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Amor e Liberdade de Germana Pata-Roxa de Fernando Évora

Opinião:
Gosto muito de livros de contos. Acho que já o tinha dito aqui e se sim, volto a dizer. Aprecio bastante este género literário e é difícil para mim entender a desconfiança dos leitores relativamente a este tipo de livros. Inclusive, há uns tempos, vi uma entrevista creio que na RTP2 a Nuno Camarneiro (vencedor do Prémio Leya) onde este referia que ao entregar um novo livro de contos à sua editora, esta pediu-lhe que reconsiderasse em transformá-lo num romance na medida em que livros de contos "em Portugal não funcionam". Podem não ter sido estas as palavras exactas mas a ideia fundamental é esta. Como eu estava a dizer, gosto muito de livros de contos. E gostei muito deste livro de Fernando Évora. Já há muito que ouvia falar do autor e lia sobre ele na blogosfera e quando surgiu a possibilidade de fazer uma pequena parceria com ele não hesitei. O passatempo para ganhar este livro já terminou, podem ver o vencedor aqui.

Ao ler este livro senti que este era um livro de recordações. Mesmo que as ideias e histórias aqui não sejam todas realidade, senti como se algumas das páginas fossem descrições de memórias antigas. O que me transportou para essa realidade foram alguns elementos chave do quotidiano de um cidadão que inevitavelmente estão presentes na nossa vida. Alguns exemplos são as nossas vivências aquando do tempo da nossa infância na escola. Colegas esquecidos na memória que reaparecem quando menos esperamos. Até a simples preferência por um clube de futebol (neste caso o Benfica) me pareceu genuína embora não conheça as preferências clubísticas do autor. Os sentimentos aqui demonstrados por diversos tipos de intervenientes deste livro são fáceis de identificare associar com situações que vivemos realmente na nossa vida. É no entanto de louvar a criatividade do autor na descrição dos mais pequenos pormenores de situações quotidianas que nem sempre estão tão presentes nos livros.
No entanto, neste livro não se sente apenas um sabor de recordações. No primeiro conto, sente-se um sabor de futuro. Um futuro negro e "inundado" de más decisões e maus governantes. Governado por aqueles que não o deveriam fazer (talvez neste ponto não seja assim um pensamento tão futuro).

Na escrita de Fernando Évora sentimos a pele do povo. Sentimos a pele da população humilde. É uma linguagem simples, despretensiosa e acolhedora que nos faz sentir bem ao lê-la mesmo que o tema seja mais ou menos feliz. É um escritor ao qual planeio voltar em breve, estando muito curioso com o livro No País das Porcas-Saras.

Recomendo!

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

OPINIÃO 1Q84 vol.3 de Haruki Murakami

Termina assim a viagem ao mundo de Murakami nos 3 volumes de 1Q84. Ou será que não? Já ouvi, de várias fontes, que o autor se encontra neste momento em processo de escrita de mais um novo volume de 1Q84, não se sabendo se será o volume 0 ou o volume 4. Como sempre, ficaremos na incógnita até que o autor decida libertar tais informações. Mas vamos ao que interessa.

Ao terminar este livro é necessário respirar fundo e colocar as ideias em ordem. São mais de 1500 páginas divididas em 3 volumes que contra a minha vontade não foram lidos de seguida. Com o facto de o tempo de intervalo entre a leitura dos 3 volumes ter sido algo distante fiquei algo receoso de deixar algum pormenor importante da história perdido na reciclagem da memória. No entanto, durante este terceiro volume Murakami recorda a história ocorrida nos dois volumes anteriores.

Neste livro surge uma nova personagem que se junta a Aomame e Tengo como protagonista. Ushikawa é um excêntrico e estranho detective contratado pela seita religiosa Vanguarda para investigar Aomame e as suas acções contra o líder da seita. Nos capítulos onde Ushikawa é o protagonista (o autor alterna em cada capítulo a perspectiva de cada um dos personagens) o tom da escrita assume um estilo mais policial. Ushikawa possui técnicas apuradas de investigação e mostra-se um hábil espião ao seguir pormenorizadamente os passos de Tengo Kawana. A sua aparência peculiar apesar de causar estranheza naqueles que Ushikawa aborda não o afastam dos seus objectivos.
Enquanto isso, Tengo e Aomame continuam em busca um do outro com o toque das suas mãos aos 10 anos na memória. Aomame, enclausurada num apartamento sozinha à espera que Tengo, absorto nos pensamentos acerca da saúde do seu pai e acerca de Aomame, surja no local onde se vêem duas luas.

Este é o mais romântico dos 3 volumes. É onde o romance entre Aomame e Tengo está mais presente. É onde a linguagem é mais ligeira e muitas das situações fluem numa atmosfera perfumada. Não significa no entanto que este facto retire qualidade ao romance. Murakami é sensível e essa é uma característica conhecida pelos seus leitores, entre outras.

São 3 volumes de desencontros, crime, amor, com o habitual toque de surrealismo característico do autor. A luta entre o bem e o mal onde as fronteiras entre ambos são ténues e a definição acerca de onde se encontram os personagens dentro desses dois campos são por vezes indefinidas.

Aconselho a todo e qualquer leitor a leitura desta obra. É ambiciosa. É notável. Vale a pena.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Esta Tristeza que me Habita de Mário Rufino

Opinião
O título deste livro retrata de forma perfeita o seu conteúdo. É um livro que emana uma tristeza profunda. Um livro de sentimentos intensos e devoradores. Com apenas 100 páginas compostas por 4 contos este livro foi uma boa surpresa. 

O primeiro conto tem o nome de "O Mendigo" e fala de um homem que descobre um mendigo à porta de uma livraria que lhe vai dirigindo estranhas palavras. À medida que vai completando as leituras que adquiriu na livraria o homem percebe que as palavras do mendigo se referiam aos livros que ele ia comprando. Com uma linguagem simples este conto surpreende com um final original.

O segundo conto chama-se "O Pastor" e é dos quatro o conto mais triste deste livro que aborda questões pertinentes da sociedade actual como a fome, a pobreza e o desemprego. Neste conto lemos a história de um pastor que vive para sustentar a sua família. A sua mulher, a filha desempregada e as outras duas filhas pequenas. O desespero assola a família que muito tenta para conseguir a sobrevivência mas nada parece resultar. Mudar de casa. Mudar de emprego. Não desistir. São ideias lançadas neste conto que nos deixa a pensar e me fazem elegê-lo como o meu preferido deste livro.

O terceiro conto tem como nome "O Morto". Desta feita, apesar de ter como tema a morte com a suposta tristeza que esta acarreta, este é um conto que pende mais para o lado do humor. Trata de um marido morto que à primeira vista parece ter morrido sem nada ter deixado para a sua fiel esposa. Esta, irritada, tece fortes insultos ao seu marido culpando-o pela sua miséria e gosto pela "má vida". No final deste conto nota-se algo de paranormal no destino de uma das personages que traz alguma originalidade ao conto.

Por fim, o quarto e último conto chama-se "Azahar". O tema são as memórias. As memórias da mente, as memórias da fotografia. A dança. A vida. É um conto introspectivo com um sabor a poesia acentuado. É o mais ligeiro dos quatro. Contém melodia.

Em suma, boa experiência este livro de Mário Rufino. Leve, mas ao mesmo tempo pesado.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Nas Teias do Poder de Fernando Gil Teixeira

Opinião: Gentilmente oferecido pela Chiado Editora (em passatempo aqui) aventurei-me neste livro por uma simples razão: a idade do autor. Fernando Gil Teixeira tem apenas 16 anos e este é a sua primeira publicação. Não se espera então deste livro uma obra prima nem um livro de peso literário muito grande devido à inexperiência do autor.

Este é um pequeno livro de 100 páginas que se lê num par de horas. A linguagem é simples, com poucos adornos e com descrições practicamente inexistentes. A história e o enredo não são propriamente originais mas o desenrolar dos acontecimentos está bem pensado. O grande problema é mesmo a velocidade em que tudo se passa. Não sei se por ventura isso acontece, mas ao ler este livro sente-se que foi imposto ao autor um limite de páginas que o mesmo não podia ultrapassar. E dizendo a verdade, a não ser quando dotado de uma capacidade narrativa notável, 100 páginas para qualquer autor não são suficientes. Em 100 páginas diz-se pouco de pouca coisa. Aqui sentimos que a história começa e quando viramos a página já acabou. Não esperava muito deste livro para além de uma história leve e despretensiosa e foi isso mesmo que aconteceu. Um policial com crime e romance à mistura. Alguma insanidade e aventura. Um ponto a destacar é a crítica social feita pelo autor a alguns temas da sociedade actual. O autor critica e reflecte (e bem) acerca do da importância dada aos desportos e desportistas "inferiores" (extra futebol). Para além disso uma crítica à arrogância dos políticos e ministros através da fictícia Ministra da Saúde.

Resumindo, uma boa estreia do autor. Não sou a favor da tão prematura publicação mas parece-me que com algum amadurecimento poderemos vir mais tarde a ouvir falar deste autor.


Veneno com Veneno de Sérgio Lorré

Opinião: A leitura deste livro foi uma estreia no que diz respeito a este autor. O meu interesse pela leitura de autores nacionais é bem conhecido e um balanço das obras lidas e apresentadas neste blog podem denotar isso perfeitamente. Há algo que me atrai nas palavras escritas originalmente na língua de Camões. Conheci este autor através do site Winkingbooks e tive até oportunidade de conversar com ele. É uma pessoa extremamente simpática e acessível e até já foi feito um passatempo com um dos seus livros aqui no blog.

Veneno com Veneno está dividido em 3 partes que completam as 310 do livro. Este livro conta-nos a história de Bruno Basil. Basil é o professor de uma nova cadeira na Universidade com o nome de Análise Contextual. Recrutado para leccionar uma curta turma de 6 alunos brilhantes, o livro começa com uma analogia muito bem conseguida onde Basil relaciona os 6 alunos e a sua disposição na sala com as peças do popular jogo de Xadrez. Desde o início a atenção que Lorré atribui às características psicológicas das personagens é evidente. As relações entre si, os diálogos e as atitudes dos jovens coincidem com o estereótipo das atitudes dos adolescentes mas complementam-se com uma capacidade intelectual maior dos intervenientes. O autor descreve pormenorizadamente as diferentes atitudes dos protagonistas e a importância que as primeiras impressões podem ter numa relação entre aluno e professor. A psicologia é de facto um tema presente durante as mais de 300 páginas deste livro onde todos os personagens parecem nutrir algum tipo de interesse e conhecimento no âmbito deste tema. O desenvolvimento da cadeira e os objectos de estudo utilizados são pouco comuns e originais e considero esse um factor muito bem arquitectado pelo autor. Por exemplo, um dos alunos decide ser essencial a visita a um bordel com tudo o que isso possa implicar, tendo um resultado desastroso mas com algumas conclusões importantes. Um dos aspectos que mais interesse me despertou (e que gostaria de poder discutir com o autor pessoalmente) foi um cálculo feito por uma personagem que surge apenas em poucas páginas mas que faz um cálculo desenvolvido e complexo relativamente a Hitler e a todos os judeus assassinados. O autor reflecte acerca do que ocorreu com os restos mortais dos judeus (cinzas) e qual o seu destino em termos de armazenamento. Este é um livro escrito de forma simples mas com um enredo complexo que vai deixando pontas soltas para o leitor as vá juntando. 

Em suma, gostei bastante deste livro. É o segundo livro do autor e tem sido bem recebido pela crítica. Aconselho sem dúvida!

Boas leituras!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Esmeralda Cor-de-Rosa de Carlos Reys

Opinião: 
Em primeiro lugar sinto-me na obrigação de salientar a enorme simpatia do autor não só por ter disponibilizado um exemplar para passatempo no blogue e outro para a leitura mas também pela gentileza das suas palavras nas breves conversações que tivemos por via de email. Falemos então do que realmente interessa.

Não é fácil definir esta obra. Mas é fácil de exprimir o prazer que esta me proporcionou. Com este seu primeiro romance fica uma pergunta: Porquê só agora? O talento para as artes de Carlos Reys é inegável e após ler este seu primeiro romance verifico que para as letras o mesmo acontece. O autor revela uma sensibilidade de escrita e uma habilidade apenas comum naqueles que já produzem esta arte há muito tempo.

Carlos Reys através de histórias paralelas que se coadunam entre si constrói um enredo interessantíssimo que prende o leitor desde a primeira à última palavra. Do título provém uma das personagens principais, Esmeralda Cor-de-Roda que enriquece este livro com a sua aparência física mas também com o seu carácter e personalidade. Mas engane-se o leitor que pensa que é apenas este o foco do livro. Neste livro existem também Sara, filha de Violeta (ou não) e Elias (ou não). Os atentos vizinhos Faustino e Natália que acodem Violeta sempre que o bêbado Elias parte para mais uma jornada de copos. A astuta parteira com atitudes polémicas mas realizadas de boa fé. O simpático Figas que deixa todo e qualquer leitor comovido depois do seu trágico destino. Guilherme Esteves, o sábio mentor do autor que nos entretém e nos deixa boquiabertos com as suas incríveis histórias. E de história também trata o livro. São abordados temas como a Segunda Guerra Mundial ou o 25 de Abril. O conhecimento histórico do autor e a veracidade dos factos que aborda são também impressionantes e denotam a pesquisa que foi feita quando da escrita deste romance. Merecem sem dúvida destaque as descrições que o autor faz das personagens que foram certamente muito trabalhadas. Não só as características físicas dos intervenientes são abordadas mas também o psicológico de cada um e as suas vicissitudes. As histórias interagem entre si harmoniosamente interligando elementos de umas para as outras que estão perfeitamente ligados de modo a construir um enredo lógico.

Apesar de ser um romance triste onde os protagonistas conhecem quase todos destinos menos favoráveis, senti-me feliz a ler as palavras de Carlos Reys. Senti que era a realidade aquilo que estava a ser escrito (e de certa forma é) e senti-me próximo do que estava a ler. Fiquei mesmo muito satisfeito com esta leitura e aguardo ansioso mas paciente por mais notícias de Carlos Reys no mundo da literatura. Entretanto, acompanhemos todos as suas diferentes obras de arte.

Recomendo!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O Perfeito Cavalheiro de Imran Ahmad

Foi uma surpresa muito agradável a leitura deste livro. Iniciei o livro sem qualquer tipo de expectativas e sem saber o que esperar. Não conhecia o autor, não conhecia a sua escrita nem a sua vida e devo dizer que fiquei muito satisfeito com a leitura desta biografia deveras original.


Imran Ahmad retrata-nos a sua vida desde os seu nascimento, 0 anos, até aos 43 anos da sua vida. Com uma linguagem clara, divertida e despretensiosa Imran Ahmad abre as portas da sua vida e mostra aos leitores a vida de um Paquistanês na sociedade Inglesa. Tendo como um dos focos principais o racismo, Ahmad relata episódios evidentes onde este sofre de discriminação racial. Por exemplo, no início da sua vida em Inglaterra, Ahmad aguardava pela autocarro escolar quando o motorista vê a cor da sua pele e decide continuar a sua marcha e não parar para deixar Ahmad entrar. Aos 8 anos devido à guerra entre o Paquistão e a Índia, Ahmad decide que odeia a Índia proferindo que "O ódio é um sentimento delicioso - surge naturalmente e faz-me sentir bem comigo próprio...superior aos outros". Surgem também vários dilemas religiosos onde na escola por exemplo, Ahmad é confrontado com colegas de diferentes religiões cujos ideais e regras não se assemelham à sua. Retirei também um excerto que achei muito interessante relativamente à religião e que diz o seguinte: "Os Romanos mataram Jesus por crucificação. Pelos vistos se ficarmos pendurados durante muito tempo acabamos por ficar demasiado exaustos para respirar - e morremos". Por volta dos 9 anos Ahmad descobre a literatura com os livros de C.S. Lewis As Crónicas de Nárnia e esse facto muda para sempre o rumo da sua vida. Anteriormente um aluno mediano, Ahmad torna-se um dos melhores alunos das turmas que frequenta. O tema racismo verifica-se também noutras ocasiões. Por exemplo na escola, Ahmad é agredido verbalmente pelos seus colegas pela sua aparência "diferente". Também na sua vizinhança, o vizinho Willy Johnson perturba constantemente a vida da família de Ahmad quando estes se mudam para uma nova casa.
Aprecio bastante a leitura de biografias e esta foi uma das que mais gostei. Ahmad escreve com um tom de ironia muito interessante enquanto aborda das mais sensíveis questões da sociedade moderna. Recomendo!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

As Intermitências da Morte - José Saramago

Opinião:
"No dia seguinte ninguém morreu". Começa assim mais uma obra do nosso Nobel. Não sei se romance é o termo correcto para a classificar mas, tomando esse termo como o correcto, é um romance de uma originalidade tremenda. Saramago brinda-nos mais uma vez como uma obra de uma qualidade literária sem igual. Passagens de deixar qualquer leitor, mesmo o mais céptico, sem folgo. Eu que, normalmente me retraio um pouco e não gosto de ver os livros sublinhados, por vezes me apetece lê-lo com um marcador ao lado para ir marcando certos excertos geniais.
No primeiro dia de um novo ano num país cujo nome não é especificado, a população deixa de morrer. Passando despercebido por muitos no início, este fenómeno começa a causar estranheza e aflição por parte dos mais variados órgãos da sociedade à medida que as horas avançam. No governo, as previsões e possíveis soluções surgem imediatamente. A catástrofe, a calamidade ou uma maravilhosa notícia? A igreja emite também imediatamente o seu parecer relativamente a este fenómeno. O que é afinal a igreja sem morte, pergunta o cardeal. Sem morte a ressurreição não existe e sem ressurreição a religião não existe. Toda a influência que esta tem poderá desaparecer se os recentes acontecimentos não cessarem. As agências funerárias e seguradoras vêem o seu negócio que antigamente prosperava com a desgraça de uns, ser agora a sua própria desgraça. Hospitais, lares e outros locais de acolhimento temem que o espaço que possuem seja cada vez mais insuficiente para albergar todos aqueles que ficam no limbo entre a vida e a morte mas que, tal como diz Saramago, "teimam em não cair". Os hospitais começaram a recusar doentes moribundos e a enviar os que já lá estavam para a casa de familiares que os pudessem receber. O mundo, que tanto ansiava por algo assim, vê que nem tudo é positivo na vida eterna. A astúcia e capacidade de resolver problemas foi sempre uma característica presente nos seres humanos e este caso não é excepção. Rapidamente uma família, ao ouvir um burburinho vindo de regiões vizinhas dizendo que "lá fora se continua a morrer" leva dois familiares para o outro lado da fronteira para que estes vão lá morrer. Este acto é um nicho de mercado rapidamente descoberto por uma nova associação, a maphia. Com ph para a diferenciar da outra. Estes "oferecem" os serviços de transporte para levar as pessoas a morrer ao outro lado da fronteira. O caos e a revolta imperam até que inevitavelmente faz-se ouvir quem por momentos deixou de trabalhar: a morte. A morte com letra minúscula porque a Morte com letra maíscula é algo totalmente distinto. Se as pessoas consideram a morte maléfica, a morte aconselha-as a não querer descobrir o que é a Morte. Esta assume várias formas durante o livro e vai comandado o desenrolar dos acontecimentos.
Para além de um romance (se o é realmente) este livro é uma reflexão sobre a vida e a morte. Sobre o que estas significam e sobre o que qualquer alteração que ocorra numa delas pode alterar o rumo e o modo como vivemos. É também uma crítica a muitas instituições que inevitavelmente regem a nossa vida e como os seus comportamentos divergem de uma maneira muito vincada quando confrontados com acontecimentos de grande importância. Tudo isto numa abordagem irónica e com uma qualidade de escrita a qual Saramago já nos habituou.
Não é o meu livro preferido de Saramago, mas é sem dúvida dos melhores que já li e dos mais originais. Recomendo sem dúvida esta leitura.