domingo, 24 de junho de 2012

Mulheres - Charles Bukowski


Se optasse por escrever aqui apenas o título do livro seria suficiente para o descrever e resumir: Mulheres. É este o tema principal e quase único desta obra. As mulheres de Bukowski. Ou as mulheres de Chinaski se quisermos ser precisos. Esta é mais uma das obras onde Henry Chinaski, alter-ego do autor, é o polémico protagonista. Nesta obra estão retratadas várias situações que descrevem as relações pessoais de Chinaski com as mulheres. Atormentado com a sua aparência e as dificuldades que tinha em arranjar namoradas aquando da sua juventude, Chinaski, agora com 50 anos, vai tornando realidade as suas fantasias de adolescente. Tornando-se relativamente célebre devido à sua escrita de poemas e contos maioritariamente, Chinaski vê nesse reconhecimento uma forma de poder estar com Mulheres que lhe eram inacessíveis anteriormente. Em toda a obra, as mulheres são tratadas muitas vezes como objectos e daí a polémica que tal como noutros livros do mesmo autor, existe em redor deste livro. Mantendo-se um homem duro e rude, Chinaski continua a descurar o respeito pelos outros e vive num panorama boémio não comum para um homem que se aproxima a passos largos dos 60 anos. Álcool em excesso e drogas são também um tema central da obra e constituem parte da personalidade de Chinaski e também de Bukowski. Esta é uma escrita agressiva com linguagem corrente não havendo nenhuma censura do tradutor para as palavras consideradas mais "fortes" e que são muitas vezes substituídas por outras mas socialmente aceites. Apesar da agressividade deste livro, há vários momentos onde é possível observar uma certa sensibilidade por parte do autor. A morte e a velhice surgem muitas vezes como parte integrante desta obra quando Henry Chinaski se olha ao espelho e vê a morte nele mesmo. Vê a morte prestes a tocar-lhe e a levá-lo. Chinaski sente-se e faz já planos para a sua morte no glorioso ano de 2000, onde na altura terá 80 anos. Apesar da escrita se manter ao estilo de Bukowski, esta é uma obra diferente. Uma obra onde existe uma reduzida originalidade da história e onde muitas vezes o que acontece num capítulo parece acontecer novamente no seguinte e no seguinte. Gostei da obra, talvez também pelo meu fascínio pelo autor não sendo no entanto, das minhas preferidas.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Dois anos sem Saramago


Serve este post apenas para relembrar um dos meus escritores favoritos.
Ontem, cumpriu 2 anos desde a partida de Saramago que nos deixou obras simplesmente magníficas. Memorial do Convento, Intermitências da Morte, Ensaio Sobre a Cegueira são apenas alguns títulos de uma vasta obra que ficará connosco para sempre.
É uma honra poder lê-lo.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Os Anões - Harold Pinter

Foi com enorme expectativa que adquiri e comecei a ler este livro. Já há algum tempo que pretendia fazê-lo e consegui finalmente realizar esse desejo. Verdade seja dita, as expectativas estavam demasiado altas e acabei a leitura deste livro com um sabor amargo de desilusão.
Comecemos por explicar o contexto em que a obra foi criada. Importante dizer que este é o único romance de Pinter tendo este vencido o prémio Nobel em 2005 maioritariamente devido à sua vasta obra teatral. Apesar de escrito nos inícios dos anos 50, Pinter decidiria apenas em prosseguir para a publicação em 1989, após voltar a reler o livro e fazer os cortes que achou necessário. Tudo isto é explicado numa nota introdutória nas próprias palavras do autor. Ao ler esta obra é evidente o porquê de Pinter ter optado pela via teatral ao invés da via de romancista pois todo o livro apresenta características evidentes de uma peça de  teatro. O autor presta especial atenção aos diálogos entre as 4 personagens principais, Mark, Pete, Len e Virginia, diálogos esses que constituem grande parte da obra onde a relação muitas vezes tempestuosa entre todos cria vários conflitos no desenrolar da história. Para além disso, a descrição física e a descrição das acções dos personagens torna evidente a aptidão do autor para a escrita de teatro. A parte que mais me agradou e que é sem grandes dúvidas a mais interessante da trama é o final do livro onde um diálogo aceso entre Mark e Len culmina numa discussão onde ambos revelam finalmente o que escondiam acerca um do outro.
Jovens problemáticos intelectuais. Uma trama amorosa não muito diferente do que já vi noutros romances. A meu ver, apesar de um livro que entretém, uma desilusão comparando as expectativas que tinha construído em seu torno.
Apesar de não ter ficado plenamente agradado com a obra, pretendo embarcar na leitura de algumas das suas obras teatrais pois a escrita do autor continua a despertar-me alguma curiosidade.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Rúbrica Video à Quinta 2

Hoje trago-vos a curta metragem que venceu o Oscar de melhor Curta metragem da cerimónia anual dos Oscares do cinema.
A curta chama-se The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore e é sem dúvida um prazer e uma crianção magnífica.
Fiquem com um vídeo e prometo que são 15 minutos passados com qualidade:


domingo, 10 de junho de 2012

Assim Falou Zaratustra - Nietzsche

Nietzsche foi um filósofo Alemão (até custa proferir esta nacionalidade depois do jogo de ontem) do século XIX. 
Começando pelo conceito filosófico do livro. Ler filósofos é sem dúvida uma tarefa árdua. São ossos duros de ler não só no que toca à forma como expõe as suas palavras e ideias mas principalmente pelo conceito intricado daquilo em que acreditam e defendem. Como é óbvio, Nietzsche não é excepção. Assim Falou Zaratustra foi um livro difícil de ler. Apesar de prazeroso, custa bastante manter a concentração durante toda a leitura e manter o pensamento limpo enquanto se ouve Zaratustra a gritar os seus pensamentos ao povo que o ouve. Também devido à edição que possuo, com letras de tamanho reduzido e páginas consideravelmente envelhecidas, a leitura se torna também mais complicado no campo visual. No entanto, seja ponto assente, que indubitavelmente a pena a leitura deste livro mas nunca, apesar de o tempo pedir, como uma leitura de praia.
Nesta obra Zaratustra clama pelo "Super-Homem". Figura que substituiria o já morto Deus, e que revolucionaria o sentido de liderança de um povo sem rumo. Habitando durante anos numa caverna, Zaratustra decide um dia sair de lá e rumar numa jornada onde introduz a sua palavra no povo. Fala do homem, do comum e do Super-Homem, fala das Mulheres, fala dos amigos próximos que deveriam ser amigos distantes. Fala de liberdade e do direito que temos de a ter e fala de opressão. Assumindo o nome de Zaratustra, Nietzsche discursa as suas próprias crenças.
Confesso que tão cedo não penso voltar a ler este filósofo maioritariamente devido ao peso intelectual do mesmo que requere uma total concentração sem nada mais que possa perturbar a sua leitura. No entanto, uma obra de enorme valor, considerada pela crítica como a sua obra prima.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Rubrica Video à Quinta 1

A partir de hoje, todas as quintas-feiras (até existirem vídeos que o mereçam) postarei aqui um vídeo do meu agrado e espero, do agrado dos leitores cujo tema não poderia deixar de ser os livros.
Nesta primeira edição, escolhi um vídeo criado para publicitar uma livraria, de seu nome Type Books situada em Toronto. Os donos da livraria tiveram a excelente e criativa ideia de realizar um video em stop-motion onde mostram as suas instalações e os títulos que têm para venda.
O vídeo chama-se The Joy of Books e espero que alegre o vosso feriado, tal como alegrou o meu:


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Philip Roth vence Prémio Príncipe das Astúrias de Letras 2012

Um dos mais aclamados escritores Norte Americanos da actualidade vence  Prémio Príncipe das Astúrias de Letras 2012 tendo como concorrente finalista o escritor Japonês Haruki Murakami. Apontado ao Nobel constantemente, Roty junta este prémio aos seus já muitos e aclamados prémios tal como O Prémio Pullitzer, o Pen/Faulkner Award ou o National Books Critic Award. O prémio representa para além de prestígio, uma quantia monetária de 50 mil euros.
O autor de 79 anos revelou-se feliz e emocionado quando teve conhecimento do prémio que lhe fora atribuído e que já tido como vencedores Norte Americanos Arthur Miller, Susan Sontag e Paul Auster. 
Já há muito que procuro ler algo deste autor mas até aqui ainda não se proporcionou. Não procuro nos prémios autores e livros para ler mas este será sem dúvida uma das próximas leituras devido às opiniões positivos que oiço acerca deste autor.

Informações da noticia retiradas daqui e daqui.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

De Profundis, Valsa Lenta - José Cardoso Pires

Tomarei a liberdade de não me alongar muito na opinião deste livro devido ao carácter esmagador do mesmo e ao mesmo esmagador efeito que a sua leitura me causou. Uma linguagem dura e crua. Uma simplicidade e naturalidade nas palavras que relatam a sua própria história. Perda de capacidades e ao mesmo tempo a noção dessa perda. Pedaços da vida do autor que morrem enquanto este assiste ao processo com quase plena consciência.
Nas 69 paginas que constituem a edição que possuo (ver foto) José Cardoso Pires relata os acontecimentos da sua vida enquanto utente do Hospital Santa Maria após sofrer um AVC em 1996. Tratado por João Lobo Antunes (prefaciador do livro), o autor conta como foi perder várias capacidades cognitivas. Perder a capacidade da escrita e da leitura. Os corredores do hospital que se tornaram a sua casa e área de passeio. Os outros doentes, Ramires e Martinho. Vivências que o autor menciona com tamanha genuinidade e que esmagam o leitor. 
Somos de facto frágeis. A nossa fragilidade só é notada quando com este tipo de situações nos deparamos, directa ou indirectamente. Estamos à mercê independentemente dos cuidados que tenhamos. Espero nunca ler a palavra BANHOS escrita numa placa com as letras no sentido inverso. Somos de facto frágeis.

sábado, 2 de junho de 2012

Pão com Fiambre - Charles Bukowski

Charles Bukowski, escritor nascido na Alemana, criado na América. Poeta, romancista. Um dos meus preferidos. Um escritor marginal. Ou, tal como escrito numa das abas deste livro, escritor "marginal(izado). Alcoólico. Machista. Quase misantropo mas não na totalidade. Revoltado. Triste. Talvez nem tanto. Novamente, de sublinhar, um dos meus preferidos. Fora dos padrões impostos por uma sociedade dominadora. Lutador. Literalmente, com os seus punhos. Bukowski é daqueles que considero um génio. E não um génio comum. E já de um génio se espera um carácter incomum. Por isso talvez Bukowski seja mais que um génio. Talvez algo ainda sem nome. Invulgar decerto. A sua obra marca certamente. A força das suas palavras. A forma que as suas palavras tomam. A dor das suas palavras. Bukowski é genuíno. Não restem dúvidas acerca desse facto. Bukowski é isto. Bukowski é álcool. Bukowski é sexo. Bukowski é violência. Bukowski é linguagem ofensiva. Bukowski é grosseiro. Bukowski é também sensível. E solitário. Havia muita dor dentro dele que ficou posteriormente guardada nas suas páginas. Posto isto, vamos ao livro.

Pão com Fiambre tem como protagonista Henry Chinaski. Criança no início do livro, adulto no final, amadurecendo ao longo da história. Henry Chinaski, alter-ego assumido pelo autor (também protagonista na sua obra Mulheres), é uma criança solitária que sofre, às vezes sem consciência, da depressão e da guerra que se vive na América. Passado em Los Angeles temos neste livro uma história que será, quase certamente, autobiográfica. Vejamos então as parecenças entre ambos, escritor e personagem "ficcional". Começando com o problema de acne que assolou a sua juventude e se quedou até à sua morte na forma de cicatrizes. Tanto na vida real como na história Bukowski, ou Chinaski, são obrigados a receber tratamento médico num hospital através de drenagem com agulhas e tratamentos com ultra-violetas. Esta doença obrigou-o a suspender os estudos durante um ano e a refugiar-se em casa durante um ano para assim tentar resolver o seu problema, no entanto em vão. Com este período de "quarentena", Bukowski descobre o que viria a ser a essência da sua vida que estava para vir: o álcool e os livros. Esse destruidor de fígados iria perseguir o escritor até ao último dia da sua vida. Alcoólico,  Bukowski confirmava, ou Chinaski confirmava neste caso, que era o álcool que o impedia de se suicidar. Era nele que gastava grande parte do seu dinheiro e era também com ele que ganhava bastante dinheiro através de jogos de bebida. Nos livros, Chinaski descobriu outros como ele. Autores também eles amargurados ou de escrita amargurada. Autores que tal como ele exprimiam os seus sentimentos exactamente como eles eram. Sem rodeios ou floreados. Hemingway por exemplo, grande influência de Chinaski. De ler surge também a vontade de escrever com uma máquina de escrever velha (mais uma parecença entre o livro e a vida real). Chinaski escreve vários contos que o próprio não acha particularmente bons, nem tão pouco melhores que o do seu amigo/inimigo Becker. Chinaski era um jovem solitário que se isolava dos restantes maioritariamente devido à sua cara desfigurada pelo problema acneico. A maioria das vezes onde de facto se relacionava com pessoas, era para lutar com elas. A violência é um tema bem presente neste livro onde Chinaski se envolve várias vezes em lutas de corpo a corpo com amigos, rivais de outras escola, ou meros desconhecidos. A família e o ambiente familiar de Chinaski estão também bastante presentes neste romance. Uma mãe submissa dominada por todas as vontades e exigências de um pai controlador e violento, proibitivo e grosseiro que tornou a vida de Chinaski a mais difícil possível.
Neste romance temos descritos um grande número de sentimentos. Os dilemas e problemas de um adolescente vão ganhando desenvolvimento até se tornarem nos dilemas e problemas de um adulto. Um livro forte e tocante que poderá chocar muitos leitores não só pela linguagem utilizada mas também pelo conteúdo do seu enredo. 
Uma obra prima, de alguém mais do que um génio.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Leituras Maio 2012

Este foi um mês produtivo em termos de quantidade de livros assim como da qualidade dos mesmos.
Este mês tive o prazer de ler:


Os livros que li este mês têm características particularmente distintas. Talvez os livros de Rui Zink e Ricardo Araújo Pereira se assemelhem bastante pois o conteúdo de ambos denota alguma semelhança não nos seus temas mas sim no estilo de escrita (crónicas humorísticas). Estes são livros que, como disse anteriormente, fazem realmente rir. Para os leitores menos ávidos a esta actividade poderá soar estranha a ideia de rir olhando para as páginas de um livro mas é o que acontece muitas vezes enquanto se lêem estas páginas. Ambos sabem como utilizar a palavra em seu benefício e no benefício da comicidade que poderão causar.
Os outros dois são dois romances totalmente distintos escritos por autores totalmente distinto. Hubbert Selby Jr. com uma escrita dura, crua e agressiva que relata um mundo e uma sociedade que o leitor espera definitivamente que seja pura criação ficcional. Já Haruki Murakami, escritor célebre no mundo da literatura, apresenta uma escrita mais cuidado e sensível prestando especial atenção às relações humanas.

Destaco como a melhor leitura do mês o livro de Haruki Murakami, 1Q84. Este é um escritor que nunca me desilude e sempre me surpreende. Um livro magnifico, descrevendo o paralelismo entre duas vidas totalmente distintas de duas pessoas totalmente distintas. Ou talvez não. Um livro que deixa uma enorme ânsia em ler o seu segundo volume e os que venham consequentemente. Poderei arriscar e dizer que Haruki Murakami é talvez o escritor que mais prazer me dá aquando da leitura dos seus livros. E o que é a leitura senão o prazer que esta nos proporciona? De que servem horas passadas rodeado de letras se o que retiramos disso são tempos pesarosos de obrigação literária?

Em suma, um mês satisfatório com boas leituras que não me desiludiram.